A política maranhense sempre teve fama de novelas mal escritas, mas o enredo atual supera qualquer roteiro de dramalhão mexicano. Carlos Brandão, o vice-governador que durante sete anos e dois meses caminhou ao lado de Flávio Dino como sombra fiel, de repente se vê transformado em alvo de operações da Polícia Federal, afastamento de servidores e acusações de corrupção. Coincidência? Só para muito ingênuo.
O que estamos vendo não é uma epifania da Justiça. É, sim, o capítulo mais explícito de uma guerra política onde as armas são os tribunais e o calendário eleitoral dita o ritmo das investigações.
O estopim da discórdia: um tribunal, dois pesos e duas medidas
A briga pela indicação de membros do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) foi o empurrão que faltava para que a relação entre Dino e Brandão explodisse. E não foi por acaso que o conflito foi parar no STF, justamente nas mãos do próprio Flávio Dino.
Aqui, caro leitor, mora o perigo. Um ministro do Supremo julgar um processo que envolve seu principal adversário político. Isso não é apenas um conflito de interesses — é um atentado ao princípio mais básico da imparcialidade judicial. Brandão tem razão quando diz que é “injusto que um juiz julgue um adversário”. E quem defende o contrário precisa explicar como isso se sustenta no Estado Democrático de Direito.
A cronologia da conveniência: por que as denúncias só agora?
Vamos aos fatos. As acusações contra Brandão — incluindo o afastamento de quatro servidores por determinação da Justiça Eleitoral — vieram a público em 2026. Ano eleitoral. Detalhe: Brandão cumpriu a ordem judicial imediatamente. Mas a pergunta que ecoa é: se ele sempre foi corrupto, por que Dino o manteve como vice por mais de sete anos?
A resposta é dura, mas necessária: porque a “integridade” de Brandão, durante o governo Dino, era, na verdade, a lealdade a Dino. Enquanto servia ao projeto político do então governador, Brandão era um príncipe. Quando resolveu ter projeto próprio — e lançar o sobrinho Orleans ao governo —, virou sapo. A coerência, nesse jogo, é a primeira vítima.
Não se combate corrupção com cronômetro. Ou se investiga sempre, ou se investiga por conveniência. O que vemos no Maranhão é a segunda opção, e isso envergonha qualquer um que acredite na Justiça.
Vingança pessoal ou Justiça? A linha tênue que incomoda
Brandão e seus aliados classificam as acusações como “vingança pessoal”. É uma acusação grave, mas não é infundada. Quando um ex-aliado, agora adversário, vê sua gestão sendo desmontada por decisões judiciais em ano eleitoral, é natural que a suspeita recaia sobre a motivação por trás dos processos.
Isso não significa que Brandão seja inocente. Significa, isso sim, que a Justiça precisa ser cega, e não seletiva. Se há provas, que sejam apresentadas com transparência. Mas que não se use a toga como capa de campanha.
O povo não é plateia — e o teatro precisa acabar
O maranhense não é bobo. Sabe que o jogo político é bruto, que os interesses são grandes e que o poder não se divide com facilidade. Mas também sabe quando está sendo tratado como figurante de uma peça onde os atores trocam de máscara conforme o ato da novela.
O que fica, no fim das contas?
Fica a certeza de que o Maranhão merece mais do que esse espetáculo de acusações convenientes e defesas chorosas. Merece investigações sérias, independentemente do período eleitoral. Merece líderes que não precisem ser destruídos para que outros sejam erguidos.
Carlos Brandão pode ser culpado ou inocente. Mas a verdade é que a forma como esse processo está sendo conduzido — às pressas, em ano eleitoral, com um adversário no comando do tribunal — mancha tanto a acusação quanto a defesa.
E, no fim, quem perde é sempre o povo. Que fica assistindo, de camarote, a mais um capítulo de uma novela onde a Justiça virou personagem e a verdade virou roteiro.
O Maranhão não é palco. É casa. E quem mora nela merece respeito.
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